A Verdade Absoluta
As
escrituras védicas originais, compiladas pelo sábio Vyasadeva– os quatro Vedas
e seus comentários – apresentam um conhecimento filosófico sobre Verdade
Absoluta. De acordo com essas escrituras, a Verdade Absoluta é uma existência
que não só não depende de outra existência, como dela emanam todas as outras
existências, ou verdades relativas. Ainda segundo a Filosofia Védica, o que é
tido como verdade relativa, se não tiver origem na Verdade Absoluta,não existe.
Portanto, não é verdade.
De
acordo com os filósofos védicos Vaishnavas personalistas, a Verdade Absoluta é
eterna e possui três aspectos – Brahman,Paramatma eBhagavan. O primeiro aspecto
refere-se ao espírito, ou à energia impessoal e onipenetrante da Verdade
Absoluta. Que anima a existência material, ou seja, que move as verdades
relativas, mas não possui qualidades materiais.
O
segundo aspecto refere-se à manifestação da Verdade Absoluta, na consciência
individual de toda existência. Como “uma outra pessoa” que orienta e testemunha
atividades.
O
terceiro aspecto é considerado pelos personalistas como o mais elevado. É a fonte
de toda existência, que necessariamente possui inteligência e consciência.
Os
personalistas identificam inteligência e consciência como indícios de
personalidade. Sendo assim, a Verdade Absoluta é uma personalidade – já que seu
terceiro aspecto manifesta inteligência e consciência – e, sendo a fonte de
tudo, a Verdade Absoluta deve possuir as qualidades que emana. E a
personalidade naturalmente seria uma delas.
Howard
Resnick, norte-americano e doutor em Estudos Indianos por Harvad (EUA), também
conhecido como o mestre personalista Vaishnava Hridayananda Das Goswami,
explica a Verdade Absoluta a partir da observação de dois aspectos do que se
costuma chamar de realidade.
Hridayananda
Das Goswami diz que, segundo a Filosofia Védica, a realidade que é passageira,
ou que começa a existir em certo momento e depois deixa de existir, pode ser
chamada de superficial. Quanto à realidade que sempre existe, Hridayananda Das
Goswami diz que pode ser chamada de "verdade mais profunda".
Para
explicar melhor, Hridayananda Das Goswami conduz seu raciocínio usando exemplos
elementares. Segundo ele, embora um prédio seja passageiro, pode-se dizer que
as leis físicas que regem a existência desse prédio, como as leis às quais
obedece a engenharia, têm uma existência muito mais extensa que o próprio
prédio.
Hridayananda
Das Goswami argumenta, então, que, a partir do pressuposto de que as leis
fundamentais da natureza física têm uma existência muito antiga e que não mudam
sempre, como a lei da gravidade, por exemplo, ou qualquer outra lei física,
pode-se dizer que elas são bem mais permanentes que a existência passageira de
um prédio que exista talvez há cem ou cinquenta anos. E, sem esquecer que as
leis físicas também têm certa relatividade, Hridayananda Das Goswami argumenta
que de várias maneiras pode-se dizer que as próprias leis materiais são
passageiras, embora elas sejam mais permanentes que os frutos de seu produto.
Ele
conclui seu raciocínio explicando que, de acordo com a Filosofia Védica,
existem diferentes níveis de realidade. Um nível de realidade é a existência
efêmera – como um prédio – e outro nível é a existência mais perene, como as
leis da natureza. Afirma que, segundo o pensamento védico, uma verdade que é
sempre verdade tem um estado, uma posição, superior àquilo que simplesmente
existe por um tempo passageiro.
Hridayananda
Das Goswami diz que o conhecimento védico acerca da Verdade Absoluta pode ser
identificado, por exemplo, no segundo capítulo do Bhagavad-gita. Lá,
Krishna diz a Arjuna que aquilo que não tem existência eterna, realmente
permanente, que é passageiro, no sentido pleno da palavra, nunca alcança uma
existência completa. E recorre às palavras de Krishna (Bhagavad-gita,
cap. 2, verso 16): “não há continuidade para o inexistente”. Assim, ele
argumenta que, segundo a Filosofia Védica, os elementos ou os ritos ontológicos
que sempre existem nunca perdem sua existência.
Lembra,
ainda, que Krishna também diz (Bhagavad-gita, cap. 2, verso 16) que
aqueles que veem a verdade afirmam que a finalidade da filosofia, ou a
finalidade do conhecimento, é exatamente reconhecer a diferença entre aquilo
que é passageiro e aquilo que é permanente ou eterno. Segundo Hridayananda Das
Goswami, para a cultura védica, em última instância, a tarefa da filosofia é de
descrever a Verdade Absoluta. E absoluto neste caso quer dizer uma verdade que
é constantemente verdade.
Aqui
vale a pena registrar um comentário de Hridayananda Das Goswami sobre a
expressão “vidente da verdade”. Segundo ele, esta é uma expressão muito frequente
nas escrituras védicas porque, de acordo com a Filosofia Védica, a verdade
realmente se pode ver, e não simplesmente se especula a respeito dela.
Além
do fato de terem existência temporária, segundo Hridayananda Das Goswami, as
realidades passageiras, de acordo com o pensamento védico, possuem uma
característica geral – elas podem ser reduzidas a definições mais simples. E
essa redução chega a ponto de se ter ao final um elemento muito diferente do
elemento original. Entretanto, de acordo com a Filosofia Védica, existe um
elemento permanente, eterno, que não pode ser reduzido. Trata-se, então, da
Verdade Absoluta, que não pode ser reduzida nem pelo tempo. "Uma verdade
que é exatamente aquilo que é, e não pode ser definida de outra maneira" –
afirma Hridayananda Das Goswami.
De
acordo com os filósofos personalistas Vaishnavas, a Verdade Absoluta seria
incompleta sem personalidade. Satsvarupa Dasa Goswami, em seu livro Introdução
à filosofia védica (Bhaktivedanta Book Trust, 1994) explica que o Vedanta-sutra
propõe: "Perguntemos a respeito da Verdade Absoluta". E, ainda
segundo Satsvarupa Dasa Goswami, o Vedanta-sutra, então, define assim a
Verdade
Absoluta: "A Verdade Absoluta é aquela da qual tudo emana".
Portanto,
os filósofos personalistas deduzem que a Verdade Absoluta, a fonte de toda a
variedade cósmica (os seres vivos, os planetas, o espaço, o tempo e assim por
diante), deve também possuir as qualidades que emana. Uma de tais qualidades,
naturalmente, é a personalidade. Isto é, a Verdade Absoluta deve possuir todas
as qualidades de suas partes. Assim, os personalistas aceitam os três aspectos
Brahman, Paramatma e Bhagavan.
O
filósofo indiano personalista A. C. BhaktivedantaSwami, na introdução da
tradução comentada, do Sânscrito para o Inglês, que fez do Purana védico
Srimad-Bhagavatam (Bhaktivedanta Book Trust, 1989), diz que, de acordo
com a Filosofia Védica, os conceitos de Deus e de Verdade Absoluta não estão no
mesmo nível. Segundo ele, o conceito de Deus indica 'o controlador'. Ao passo que o conceito de Verdade Absoluta
indica 'a fonte última de todas as energias'.
O
Swami explica que, de acordo com o Bhagavad-gita, qualquer “controlador”
que tenha algum poder extraordinário específico é chamado de “controlador
dotado de poder pela Verdade Absoluta”.
Ele diz que na cultura védica há muitos deuses com poderes específicos
diversos, mas ratifica que a Verdade Absoluta é única e incomparável.
Também
argumenta que o Srimad-Bhagavatam designa a Verdade Absoluta como “fonte
última de todas as energias”. Mais detalhadamente, ele explica que os deuses
védicos, ou “controladores”, são pessoas, mas eles obtêm poderes de controle da
Verdade Absoluta ou Pessoa Suprema.
Ainda segundo o Swami, a Pessoa Suprema é a suprema personalidade
consciente, e, porque não recebe nenhum poder de nenhuma outra fonte, possui a
suprema independência.
Esta
Personalidade Suprema sabe de tudo direta e indiretamente, diz ele. As pessoas
individuais, que são partes integrantes da Personalidade Suprema, talvez saibam
direta e indiretamente tudo a respeito de seus próprios corpos ou
características externas. Mas a Personalidade Suprema sabe tudo sobre Seus
aspectos externo e interno.
“A
fonte original de todas as energias é a Verdade Absoluta. Este fato é expresso
em todos os textos védicos” – afirma o filósofo. Esta Verdade Absoluta é
logicamente aceita como a Pessoa Suprema porque é consciente de todas as coisas
passadas, presentes e futuras, e também de cada uma de Suas manifestações,
tanto materiais, quanto espirituais.
Vanavihari dd



