quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Origem e influência dos arianos sobre o mundo
Sri Nandanandana Dasa (*)
tradução: Vanavihari Devi Dasi
Ainda é incerto como o nome ‘ariano’ foi atribuído aos povos ditos “invasores” das regiões do Vale do Indus. Mas não é uma consideração legítima se realmente houve alguma invasão. Entretanto, chamou-se de “ariano” aos ocupantes das planícies entre os mares Cáspio e Negro.
A hipótese acadêmica é de que eles começaram a migrar no começo do segundo milênio a.C. Alguns teriam ido para o Norte e Noroeste, outros, para o Oeste, se instalar em regiões do Oriente Médio, enquanto outros ainda teriam viajado para a Índia, através do Vale do Indus. Esses que teriam entrado na Índia são chamados de “arianos invasores”.
Entretanto, a literatura védica estabelece um argumento diferente. Ela apresenta evidência de que a antiga Índia, a Índia pré-histórica, se estendia numa área muito mais extensa. Os verdadeiros arianos não eram os invasores provenientes do Norte para o Vale do Indus. Eles eram sim os residentes originais da região, descendentes da sociedade védica que havia se espalhado a partir da Índia sobre todo o mundo.
É bom lembrar que o termo ariano foi confundido com o significado ‘claro’, ‘de aparência clara’. Porém, ariano refere-se a arya (do Sânscrito), ou uma consciência clara para Deus, não às pessoas brancas. Nas escrituras védicas, a palavra aryans é usada para se referir aos que são orientados espiritualmente e de caráter nobre.
A palavra aryan, em Sânscrito, está ligada linguisticamente à palavra harijana (pronunciada hariyana), significando ‘relacionado a Deus’. Então, ariano refere-se aos que praticam os ensinamentos védicos, e não significa uma raça em particular. Qualquer pessoa pode ser um ariano seguindo a clara filosofia védica, enquanto os que não a seguem são não arianos.
O nome ariano, como geralmente é aceito hoje, foi desviado a um grupo de pessoas que teria migrado do Norte para a Índia. Vieram a chamar esse povo de “sumerianos”, mas L. A. Waddell (The Indo Sumerian Seals Deciphered, 1980; Hawthorne, Califórnia: Omni Publications), embora use o termo, explica que o nome sumeriano não existe como uma classificação étnica. Segundo ele, foi fabricado pelos assiriologistas modernos e é usado para rotular os povos arianos.
O Dr. A. Rupert Hall, em seu livro Ancient History of the Near East, diz que há entre os dravidianos da Índia e o sumerianos da Mesopotâmia uma semelhança antropológica que sugere que o povo chamado de sumeriano de fato seja descendente indiano. Com esta informação em mente, está claro que os reais arianos eram os seguidores védicos que já existiam em toda Índia e ao Norte, além do Vale do Indus.
Para ajudar a entender como a influência ariana se espalhou pelo mundo, L. A. Waddell explica que os arianos estabeleceram as rotas pré-históricas de comércio por terra e mar. Desde pelo menos o começo do terceiro milênio a.C., se não desde muito antes.
Onde quer que os arianos fossem, eles impunham sua autoridade e cultura, para melhoria da cultura que encontravam. Reuniam em unidade nacional tribos e clãs desgarrados, que se tornavam cada vez mais hábeis em sistemas de organização social, comércio, e arte.
Em busca de novas fontes de metal, como aço, cobre, ouro, e chumbo, os arianos estabeleceram portos e colônias entre as tribos locais. Que, depois, desenvolveram em nações separadas muitas das tradições e características culturais dos arianos governantes.
Claro que, como o comércio com os arianos diminuiu, especialmente depois da Guerra de Mahabharata na Índia, surgiram variações nas lendas e culturas. Isto responde pelas muitas semelhanças que havia entre as diferentes civilizações antigas do mundo, como também pelas semelhanças ainda hoje existentes.
Os antigos Puranas explicam que Manu e seus filhos governaram tanto sobre terras ao norte, quanto sobre terras ao sul do Monte Meru e Kailas. Outros arianos poderiam ter descido facilmente os rios Sarasvati e Sarayu, no norte a Índia.
Outros, do Indus, entraram em Kashmir, no Afeganistão e na Ásia Central. Outros ainda entraram nas áreas de Gujarat e Sind, e por sobre a Pérsia e a região do Golfo. Eis como a civilização sumeriana foi fundada, junto com a Babilônia. De lá, eles entraram mais adiante, na Turquia e na Europa.
Depois de se espalharem pelo sul da Índia, eles prosseguiram Ganges abaixo pelo Mar do Leste, na Malásia e na Indonésia, fundando antigas culturas védicas. Através do mar, seguiram para a China, onde provavelmente já havia arianos. Da China e do Oriente, velejaram sobre o Oceano Pacífico e finalmente alcançaram e colonizaram as Américas.
Podemos ver alguns dos efeitos dessa expansão fora de Índia quanto ao termo aryan. O nome harijana ou aryan desenvolveu-se em syrian, na Síria; hurrian, em Hurri; e iranian, no Irã. Um caso semelhante é o desenvolvimento do nome parthian em Partha, outro antigo país na região da Pérsia. Partha era o nome do amigo de Krishna Arjuna, um ariano védico, e significa ‘o filho do Rei Prithu’.
Assim o nome parthian indica ‘aqueles que são descendentes de Rei Prithu’. E os gregos se referiam aos judeus como judeos, ou jahdeos, ou yadavas, significando ‘povo de Ya’, ou ‘descendentes de Yadu’ – Yadu era um dos filhos de Yayati.
Outro aspecto da conexão entre essas várias regiões e a cultura védica é explicado na literatura védica. No Rig-Veda (10.63.1), Manu é o primeiro dos reis e videntes. Ele e sua família foram sobreviventes do dilúvio mundial, como mencionado no Shatapatha Brahmana (1.8.1).
Assim, um novo começo para a raça humana veio de Manu, e toda a humanidade descende dele. O Atharva-veda (19.39.8) menciona onde a nau de Manu ancorou no Himalaya, depois da inundação. No norte da Índia, na colina de Manali, há um templo que marca este local. Seus descendentes são os Paurava, Ayu, Nhusha, e Yayati.
De Yayati vieram o cinco clãs védicos: Puru, Anu, Druhyu, Turvasha, e Yadu. Os Turvasha estão relacionados ao sudeste da Índia, Bengala, Bihar, e Orissa, e são os ancestrais dos dravidianos e dos Yavana. Yadu está relacionado ao Sul ou Sudoeste, Gujarat e Rajasthan, de Mathura para Dwaraka e Somnath.
Os Puru estão conectados com a região central de Yamuna/Ganges. De acordo com ShrikantTalageri, no livro The AryanInvasionTheory: A Reappraisal (1993; pp. 304-5, 315, 367-368; Delhi: Model Town II), destes ancestrais, os Puru eram o povo do Rig-Veda e desenvolveram a cultura védica no norte central da Índia e no Punjab, ao longo do Rio Saravati, (Rig-Veda 7.96.2).
Os Anu estão relacionados ao Norte, a Punjab, Bengala e Bihar. Do sul de Kashmir, eles se espalharam sobre a Ásia Ocidental, ao longo do Parushni, ou atualmente Rio Ravi (Rig-Veda 7.18.13), e desenvolveram as várias culturas iranianas.
Os Druhyu relacionam-se a Oeste e Noroeste, como Gandhara e Afeganistão. Os Druhyu, do noroeste da área do Punjab e Kashmir, espalharam-se na Europa e se tornaram os indo-europeus ocidentais, ou os druidas e celtas antigos. Um primeiro grupo foi para Noroeste e desenvolveu o dialeto Proto-Germânico. E outro grupo viajou para mais longe ao Sul e desenvolveu os dialetos Proto-Helênico e Itálico-Celta. Outras tribos incluíam os Pramshu, em Bihar Ocidental, e Ikshvaku, do norte de Uttar Pradesh.
Outras tribos mencionadas nos textos védicos incluem os Kirata, o povo das montanhas do Tibete e Nepal, considerado impuro por não praticar o dharma védico. O Vishnu Purana (4.3.18-21) também menciona os Shaka (scythians da antiga Ásia Central); os Pahlava (persas); e os Cina (chineses). Todos considerados nobres caídos, ou kshatriyas (guerreiros) expulsos da Índia durante o reinado do Rei Sgara.
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Para explicar mais
Yadu era o primogênito dos cinco filhos de Yayati, um grande imperador do mundo e um dos ancestrais originais dos arianos e da herança indo-europeia. Yayati dividiu seu reino entre os filhos, que, então, começaram as próprias dinastias.
Yayati teve duas esposas, Devayani e Shamistha. Com Devayani teve dois filhos: Yadu e Turvasu. Yadu era o criador da dinastia de Yadu, ou Yadava, conhecida como a Dinastia Lunar. De Turvasu vieram os Yavana, ou Dinastia Turca. De Sharmistha, Yayati teve três filhos: Druhya, que começou a dinastia de Bhoja; Anu, que começou a Dinastia Mleccha, ou Grega; e Puru, que começou a Dinastia Paurava, estabelecida ao longo dos rios Ravi e Sarasvati.
Alguns dizem que este clã foi depois para o Egito e deu origem aos faraós. Estas tribos arianas, originárias da Índia, do rei Yayati, mencionadas no Rig-Veda e nos Vishnu e Bhagavat Puranas, espalharam-se pelo Vale do Indo inteiro.
O Mahabharata menciona várias províncias do sul da Europa e da Pérsia, que uma vez estiveram conectadas com a cultura védica. O Adi-parva (174.38) do Mahabharata descreve a província de Pulinda (Grécia), conquistada por Bhimasena e Sahadeva, dois dos irmãos Pandava. Assim, os gregos antigos uma vez integraram Bharata-Varsa (Índia) e a civilização védica.
As seções de Sabha-parva e Bhisma-parva do Mahabharata mencionam a província de Abhira, situada próximo ao que uma vez foi o Rio Sarasvati. É dito que os Abhira foram guerreiros que deixaram a Índia e se esconderam nas colinas do Cáucaso, entre os mares Negros e Cáspio.
Outra província mencionada no Mahabharata (Adi-parva 85.34) é a dos Yavana (turcos) assim nomeados por serem descendentes de MaharajaYavana (Turvasu), um dos filhos de MaharajaYayati. Lutaram na Batalha de Kurukshetra, contra os Pandava, em nome de Duryodhana. Esta é a versão védica das origens da civilização ariana e como sua influência se espalhou pelo mundo.
Para saber mais:
(*) 1. Sri NandanandanaDasa é foto-jornalista, pesquisador da cultura védica e discípulo de A. C. BhaktivedantaSwami.
(*) 2. do livro: ProofofVedicCulture's Global Existence.

terça-feira, 30 de setembro de 2014






















A Verdade Absoluta
As escrituras védicas originais, compiladas pelo sábio Vyasadeva– os quatro Vedas e seus comentários – apresentam um conhecimento filosófico sobre Verdade Absoluta. De acordo com essas escrituras, a Verdade Absoluta é uma existência que não só não depende de outra existência, como dela emanam todas as outras existências, ou verdades relativas. Ainda segundo a Filosofia Védica, o que é tido como verdade relativa, se não tiver origem na Verdade Absoluta,não existe. Portanto, não é verdade.
De acordo com os filósofos védicos Vaishnavas personalistas, a Verdade Absoluta é eterna e possui três aspectos – Brahman,Paramatma eBhagavan. O primeiro aspecto refere-se ao espírito, ou à energia impessoal e onipenetrante da Verdade Absoluta. Que anima a existência material, ou seja, que move as verdades relativas, mas não possui qualidades materiais.
O segundo aspecto refere-se à manifestação da Verdade Absoluta, na consciência individual de toda existência. Como “uma outra pessoa” que orienta e testemunha atividades.
O terceiro aspecto é considerado pelos personalistas como o mais elevado. É a fonte de toda existência, que necessariamente possui inteligência e consciência.
Os personalistas identificam inteligência e consciência como indícios de personalidade. Sendo assim, a Verdade Absoluta é uma personalidade – já que seu terceiro aspecto manifesta inteligência e consciência – e, sendo a fonte de tudo, a Verdade Absoluta deve possuir as qualidades que emana. E a personalidade naturalmente seria uma delas.
Howard Resnick, norte-americano e doutor em Estudos Indianos por Harvad (EUA), também conhecido como o mestre personalista Vaishnava Hridayananda Das Goswami, explica a Verdade Absoluta a partir da observação de dois aspectos do que se costuma chamar de realidade.
Hridayananda Das Goswami diz que, segundo a Filosofia Védica, a realidade que é passageira, ou que começa a existir em certo momento e depois deixa de existir, pode ser chamada de superficial. Quanto à realidade que sempre existe, Hridayananda Das Goswami diz que pode ser chamada de "verdade mais profunda".

Para explicar melhor, Hridayananda Das Goswami conduz seu raciocínio usando exemplos elementares. Segundo ele, embora um prédio seja passageiro, pode-se dizer que as leis físicas que regem a existência desse prédio, como as leis às quais obedece a engenharia, têm uma existência muito mais extensa que o próprio prédio.
Hridayananda Das Goswami argumenta, então, que, a partir do pressuposto de que as leis fundamentais da natureza física têm uma existência muito antiga e que não mudam sempre, como a lei da gravidade, por exemplo, ou qualquer outra lei física, pode-se dizer que elas são bem mais permanentes que a existência passageira de um prédio que exista talvez há cem ou cinquenta anos. E, sem esquecer que as leis físicas também têm certa relatividade, Hridayananda Das Goswami argumenta que de várias maneiras pode-se dizer que as próprias leis materiais são passageiras, embora elas sejam mais permanentes que os frutos de seu produto.
Ele conclui seu raciocínio explicando que, de acordo com a Filosofia Védica, existem diferentes níveis de realidade. Um nível de realidade é a existência efêmera – como um prédio – e outro nível é a existência mais perene, como as leis da natureza. Afirma que, segundo o pensamento védico, uma verdade que é sempre verdade tem um estado, uma posição, superior àquilo que simplesmente existe por um tempo passageiro.
Hridayananda Das Goswami diz que o conhecimento védico acerca da Verdade Absoluta pode ser identificado, por exemplo, no segundo capítulo do Bhagavad-gita. Lá, Krishna diz a Arjuna que aquilo que não tem existência eterna, realmente permanente, que é passageiro, no sentido pleno da palavra, nunca alcança uma existência completa. E recorre às palavras de Krishna (Bhagavad-gita, cap. 2, verso 16): “não há continuidade para o inexistente”. Assim, ele argumenta que, segundo a Filosofia Védica, os elementos ou os ritos ontológicos que sempre existem nunca perdem sua existência.
Lembra, ainda, que Krishna também diz (Bhagavad-gita, cap. 2, verso 16) que aqueles que veem a verdade afirmam que a finalidade da filosofia, ou a finalidade do conhecimento, é exatamente reconhecer a diferença entre aquilo que é passageiro e aquilo que é permanente ou eterno. Segundo Hridayananda Das Goswami, para a cultura védica, em última instância, a tarefa da filosofia é de descrever a Verdade Absoluta. E absoluto neste caso quer dizer uma verdade que é constantemente verdade.
Aqui vale a pena registrar um comentário de Hridayananda Das Goswami sobre a expressão “vidente da verdade”. Segundo ele, esta é uma expressão muito frequente nas escrituras védicas porque, de acordo com a Filosofia Védica, a verdade realmente se pode ver, e não simplesmente se especula a respeito dela.
Além do fato de terem existência temporária, segundo Hridayananda Das Goswami, as realidades passageiras, de acordo com o pensamento védico, possuem uma característica geral – elas podem ser reduzidas a definições mais simples. E essa redução chega a ponto de se ter ao final um elemento muito diferente do elemento original. Entretanto, de acordo com a Filosofia Védica, existe um elemento permanente, eterno, que não pode ser reduzido. Trata-se, então, da Verdade Absoluta, que não pode ser reduzida nem pelo tempo. "Uma verdade que é exatamente aquilo que é, e não pode ser definida de outra maneira" – afirma Hridayananda Das Goswami.
De acordo com os filósofos personalistas Vaishnavas, a Verdade Absoluta seria incompleta sem personalidade. Satsvarupa Dasa Goswami, em seu livro Introdução à filosofia védica (Bhaktivedanta Book Trust, 1994) explica que o Vedanta-sutra propõe: "Perguntemos a respeito da Verdade Absoluta". E, ainda segundo Satsvarupa Dasa Goswami, o Vedanta-sutra, então, define assim a
Verdade Absoluta: "A Verdade Absoluta é aquela da qual tudo emana".
Portanto, os filósofos personalistas deduzem que a Verdade Absoluta, a fonte de toda a variedade cósmica (os seres vivos, os planetas, o espaço, o tempo e assim por diante), deve também possuir as qualidades que emana. Uma de tais qualidades, naturalmente, é a personalidade. Isto é, a Verdade Absoluta deve possuir todas as qualidades de suas partes. Assim, os personalistas aceitam os três aspectos Brahman, Paramatma e Bhagavan.
O filósofo indiano personalista A. C. BhaktivedantaSwami, na introdução da tradução comentada, do Sânscrito para o Inglês, que fez do Purana védico Srimad-Bhagavatam (Bhaktivedanta Book Trust, 1989), diz que, de acordo com a Filosofia Védica, os conceitos de Deus e de Verdade Absoluta não estão no mesmo nível. Segundo ele, o conceito de Deus indica 'o controlador'.  Ao passo que o conceito de Verdade Absoluta indica 'a fonte última de todas as energias'.
O Swami explica que, de acordo com o Bhagavad-gita, qualquer “controlador” que tenha algum poder extraordinário específico é chamado de “controlador dotado de poder pela Verdade Absoluta”.  Ele diz que na cultura védica há muitos deuses com poderes específicos diversos, mas ratifica que a Verdade Absoluta é única e incomparável.
Também argumenta que o Srimad-Bhagavatam designa a Verdade Absoluta como “fonte última de todas as energias”. Mais detalhadamente, ele explica que os deuses védicos, ou “controladores”, são pessoas, mas eles obtêm poderes de controle da Verdade Absoluta ou Pessoa Suprema.  Ainda segundo o Swami, a Pessoa Suprema é a suprema personalidade consciente, e, porque não recebe nenhum poder de nenhuma outra fonte, possui a suprema independência.
Esta Personalidade Suprema sabe de tudo direta e indiretamente, diz ele. As pessoas individuais, que são partes integrantes da Personalidade Suprema, talvez saibam direta e indiretamente tudo a respeito de seus próprios corpos ou características externas. Mas a Personalidade Suprema sabe tudo sobre Seus aspectos externo e interno.
“A fonte original de todas as energias é a Verdade Absoluta. Este fato é expresso em todos os textos védicos” – afirma o filósofo. Esta Verdade Absoluta é logicamente aceita como a Pessoa Suprema porque é consciente de todas as coisas passadas, presentes e futuras, e também de cada uma de Suas manifestações, tanto materiais, quanto espirituais.

Vanavihari dd 

Vegetarianismo

Mais que uma tradição
A palavra ‘vegetariano’ deriva da palavra latina vegetus, que significa sadio, fresco, vivo. Assim, homo vegetus denota ‘pessoa mental e fisicamente sã’.
E a prática do vegetarianismo é mais que uma tradição, pois tem suas raízes na cultura védica. Há milhares de anos, como demonstram as escrituras védicas, foi muito comum no mundo inteiro. 



Com o advento da Era de Ferro (Kali-yuga), há cerca de cinco mil anos, esta prática começou declinar, contudo nunca foi abandonada completamente. E assim já profetizava o conhecimento védico, quando ainda era transmitido na oralidade, de mestre a discípulo, bem antes de ser compilado no Sânscrito pelo sábio Vyasa Deva – uma encarnação de Vishnu.

Hoje, conforme o ensinamento, o desejo e a profecia de outro mestre da Filosofia Védica, Chaitanya Mahaprabhu – uma encarnação de Krishna, que veio ao mundo há pouco mais de 500 anos –, retoma-se a prática do vegetarianismo.  Ela cresce a cada dia, rompe fronteiras e conquista adeptos pelo mundo todo – embora ainda considerados minoria e sonhadores que vivem em um mundo de fantasias.

Porém, os mais bem informados acabam descobrindo o que as milenares escrituras védicas defendem: o vegetarianismo é a melhor escolha como alimentação para o ser humano. E que ele implica também uma linha de conduta filosófica e moral – não se restringe apenas a um regime alimentar.

Há muitas teorias sobre alimentação vegetariana, mas as escrituras védicas apresentam o vegetarianismo como abstenção de carne, peixe e ovos. A partir da combinação de legumes, frutas, cereais e produtos lácteos, o regime védico fundamenta-se numa filosofia sadia, na ciência e no bom senso, presente no mundo desde tempos remotos.
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* Alguns trechos extraídos do livro: Gosto Superior (pg.3); São Paulo: Fundação Bhaktivedanta. 1992.

  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014


Que são os Vedas?

Nos últimos tempos, a imprensa dirigida a leitores interessados em qualidade de vida tem publicado muitos artigos, matérias e reportagens sobre Yoga, Ayurveda, Vastushastra. De uma forma ou de outra, estes assuntos remetem à milenar cultura védica, que floresceu no norte da Índia há mais de cinco mil anos, apoiada nos Vedas.

Entretanto, pouco ou quase nada se comenta sobre os Vedas e seu propósito. Quando muito, diz-se que os Vedas abordam uma filosofia complexa que fundamenta o Hinduísmo. As enciclopédias e os dicionários apresentam verbetes muito vagos, confusos e incompletos sobre o termo veda, como este abaixo encontrado num famoso dicionário brasileiro da Língua Portuguesa:

“veda: [Do sânscr. veda, 'conhecimento'.]. Substantivo masculino. 1.Conjunto de textos sagrados — hinos laudatórios, formas sacrificais, encantações, receitas mágicas — que constituem o fundamento da tradição religiosa (do bramanismo e do hinduísmo) e filosófica da Índia.”

Em livros são poucos os autores que abordam o assunto com segurança. Há muitas abordagens em edições caras, que pela apresentação, parecem confiáveis, mas, na verdade, não passam de especulações. É preciso muito cuidado, pois nem toda abordagem sobre os Vedas é fidedigna.

As publicações mais confiáveis são elaboradas por escolas tradicionais de filosofia védica, conhecidas como sampradayas, com orientação transmitida de mestre a discípulo. Portanto, é sempre bom indagar a origem da publicação que se tem a mão sobre os Vedas. Se não houver uma sucessão discipular filosófica por trás da publicação, e se o autor não fizer referência à sucessão discipular da qual faz parte e ao mestre que o autorizou, mesmo que a editora seja renomada, a publicação não é considerada genuína.

Mas, por que tanto cuidado? – alguém pode perguntar. E a resposta é porque os Vedas apresentam um conceito filosófico sobre Verdade Absoluta, cuja compreensão é mediada pela explicação de um mestre brahmana genuíno, ou seja iniciado numa sampradaya.

Originalmente, antes de ser registrado na escrita, este conhecimento era transmitido oralmente de mestre a discípulo, em escolas tradicionais de filosofia védica. E, assim, tradicionalmente, essa transmissão se mantém nos dias atuais, mesmo depois do advento da escrita.

Este cuidado também faz parte de injunções contidas nos próprios Vedas. Elas prescrevem que os estudos e explicações das escrituras devem proceder em sucessões discipulares, sob orientação de um mestre brahmana, para evitar especulações.

Segundo Satsvarupa Dasa Goswami, filósofo, pesquisador da cultura védica e mestre brahmana genuíno, em seu livro Introdução à filosofia védica — publicado pela divisão editorial brasileira da Bhaktivedanta Book Trust (BBT), editora especializada em publicações védicas —, “as escrituras védicas delineiam sua própria origem”.

Satsvarupa Dasa Goswami afirma que as escrituras védicas descrevem a si mesmas como apauruseya. O que significa que elas não vêm de alguma pessoa materialmente condicionada, mas procedem do Supremo, uma fonte transcendental à dualidade mundana.

Satsvarupa Dasa Goswami relata que o conhecimento védico é eterno e foi transmitido ao semideus Brahma no alvorecer da criação do Universo. Em seguida, Brahma instruiu o sábio Narada, cujas percepções aparecem ao longo da literatura védica.
E, em prosseguimento à sucessão discipular advinda do semideus Brahma, o sábio Narada instruiu o sábio Vyasadeva. Que, por sua vez, há cinco mil anos, compilou este conhecimento em quatro livros: Rig Veda, Atharva Veda, Sama Veda e Yajur Veda.

Depois, Vyasadeva escreveu todas as escrituras que explicam os Vedas: Vedantasutra; Mahabharata – no qual está contido o Bhagavad-gita, a essência dos Vedas; Upanishads; e dezoito puranas – comentários romanceados sobre os Vedas, entre os quais o Srimad Bhagavatam, considerado o mais importante dos puranas porque narra histórias da Suprema Personalidade de Deus, Krishna, na Terra.

De acordo com Satsvarupa Dasa Goswami, literatura védica tem como finalidade principal transmitir o conhecimento sobre auto-realização e, portanto sobre como libertar-se do sofrimento.  Ou seja, a meta do pensamento védico é conduzir à verdade, cujo reconhecimento leva à liberdade. Com efeito, o pensamento védico conduz não somente a informação, mas a transformação.

O Bhagavad-gita, por exemplo, descreve o conhecimento de como aceitar a importância da auto-realização, e buscar filosoficamente a Verdade Absoluta. Outra percepção importante a que almeja o conhecimento védico é a compreensão dos malefícios do nascimento, da morte, da velhice e da doença.

Enfim, nas palavras de Satsvarupa, a literatura védica declara que, a despeito da aparente alegria, vida material significa sofrimento, e o conhecimento védico visa a libertar deste sofrimento o indagador sincero.

Leitura recomendada:
GOSWAMI, Satsvarupa Dasa, Introdução à filosofia védica – a tradição fala por si mesma. São Paulo (SP): Bhaktivedanta Book Trust (BBT). 1986;
PRABHUPADA, A.C. Bhaktivedanta Swami, O Bhagavad-gita como ele é. Brasília (DF): Bhaktivedanta Book Trust (BBT). 2005;
PRABHUPADA, A.C. Bhaktivedanta Swami, Srimad Bhagavatam. Pindamonhangaba (SP): Bhaktivedanta Book Trust (BBT). 1994.




Sobre a cultura védica

A cultura védica é uma prática de vida que busca a compreensão da Verdade Absoluta. Há milhares de anos, esta postura de vida predominou por toda face da terra, em torno da ética do perfeito viver e do idioma que busca a perfeição do discurso, o Sânscrito. Seu centro floresceu ao norte da Índia, numa região onde é hoje o deserto do Rajastão, em um vale entre os rios antigos Indu e Saraswati.

Quando essa cultura começava a declinar, há cinco mil anos, o conhecimento filosófico que a fundamenta foi registrado em versos, pela primeira vez em um alfabeto – o Devanagari.  Assim aconteceu a compilação dos quatro Vedas –Rig,SamaYayur e Atharva – feita pela encarnação literária do deus Vishnu, o sábio Vyasa Deva.  Até então, este conhecimento fora transmitido na oralidade, por milhares e milhares de anos e sempre em sucessão discipular, segundo esses próprios registros.

Vyasa Deva escreveu ainda o Mahabharata, o maior poema épico já escrito, com mais de cem mil versos, em que está contido o Bhagavad-gita, a canção do Senhor. Também escreveu o Vedanta Sutra, 108 Upanishads e mais 18 Puranas.

Além de conhecimento filosófico e de vasta literatura,  da cultura védica há legados importantes também para a área da saúde, com o Ayurveda; da arquitetura, com o Vastu-Shastra; do desenvolvimento social, com o sistema de Varnashrama; do autoconhecimento, com o Jyotishi (Astrologia); e da elevação da consciência, com o sistema de Yoga.

Enfim, a cultura védica milenar se faz muito presente nas manifestações de dança, teatro e artes plásticas, não somente na cultura indiana, mas também nas tradições culturais de diversas nações do mundo. É o que bem demonstra o pesquisador Stephen Knapp, em sua obra Proof of Vedic Culture’s  Global Existence.